Mototáxis, proibição de fretados e marginais: em São Paulo, política de mobilidade é “salve-se quem puder”

3 ago 2009 by josé carlos vaz, 15 Comments »

As semanas recentes foram pródigas em péssimas notícias para a mobilidade urbana em São Paulo.  A sucessão de absurdos chega a parecer brincadeira.

Primeiro, o início das obras de ampliação da Marginal  Tietê. Segundo o padrão da política de transporte que domina a cidade desde Washington Luís, o governo do Estado e a Prefeitura iniciaram as obras de destruição dos canteiros centrais arborizados da Marginal Tietê, para construir mais espaço para colocar carros em congestionamentos.  A fórmula já foi tentada incontáveis vezes, mas os governos não querem aprender com os erros do passado. Construir mais vias para automóveis só aumenta o volume de viagens realizadas por esse modo de transporte. Pode aliviar no primeiro momento, mas logo serão necessárias novas vias, que depois ficarão  congestionadas novamente, exigindo novas vias, assim sucessivamente até o dia em que não for possível tirar o carro da garagem.

Segundo a  lógica do urbanismo malufista, tão bem acatada pelos governos, nenhuma das novas pistas em construção deve funcionar como corredor de ônibus ou ciclovia. Mais uma vez, milhões são gastos para privilegiar os usuários de transporte individual. E para sinalizar para a sociedade que é isto o que realmente interessa.

Como opção de política de mobilidade urbana, a única coisa a dizer dessa ação é que é uma bobagem que só vai verdadeiramente beneficiar empresas e indivíduos envolvidos na realização das obras. Se formos pensar do ponto de vista ambiental, o que era uma asneira vira uma barbaridade: o custo ambiental da obra é elevado e tem várias dimensões. A obra ampliará mais o nível de impermeabilização do solo na cidade. Quando o que é necessário é criar mais áreas verdes e desimpermeabilizar o solo, faz-se o inverso. O replantio de parte das árvores não resolve o problema, porque não cria novas áreas verdes, apenas adensa outras, como se pode ver nos trechos poupados da própria Marginal, onde encontramos árvores replantadas ao lado de outras já existintes. O saldo final é negativo. A impermeabilização do solo, a ausência de árvores e as avenidas com múltiplas pistas apenas tornam a paisagem urbana mais feia, árida e hostil.  O culto à feiúra persiste. Além disso, há a dimensão social. Não se entende que uma cidade feia, árida e hostil não é somente um problema estético. É um problema de qualidade de vida, de saúde e de coesão social. Como podemos esperar  um ambiente de paz e solidariedade em um lugar onde quem não tem carro não tem vez?

A segunda notícia triste é o conjunto de barbeiragens em torno das restrições aos fretados na cidade. Além da evidente fragilidade da preparação das medidas, atestada pelas idas e vindas da prefeitura no assunto, o que se evidencia, novamente, é a prioridade dada ao transporte individual.  Do ponto de vista da fluidez do trânsito, é inegável que a circulação de fretados, assim como a circulação de qualquer outro veículo, demanda regulamentação do poder público. Mas essa regulamentação não pode  constituir um desestímulo a um modo de transporte coletivo em benefício do fomento do transporte individual por automóvel. E as novas normas significam isto, especialmente somadas à farta quantidade de improvisações e procedimentos inadequados que assistimos nestes últimos dias.  Isso sem falar na forma autoritária como o processo foi conduzido, culminando na repressão a trabalhadores usuários de fretados, realizada pela  polícia e seu gás de pimenta.

Se tomarmos os dois locais da cidade onde a proibição dos fretados gerou mais polêmica, a Av. Paulista e a região da Berrini, veremos que se tratam de locais com alta concentração de empregos e serviços e infra-estrutura de mobilidade deficientes. Se a região da Paulista ao menos conta com um metrô superlotado, a Berrini tem que conformar com uma linha de trem com sérias deficiências de acessibilidade e integração.  No caso da Berrini, a tendência será de aumento do número de automóveis circulando, agravando a saturação da área.  Mais uma vez, o poder público contribuirá para a degradação de uma área valorizada por suas próprias ações, o que estimulará o capital a buscar novas áreas para investir: talvez os empreendedores da Nova Luz lucrem com isso…

Ficamos com duas perguntas: (1) Será que, ao invés de restringir a circulação de ônibus fretados, não seria melhor restringir a circulação de automóveis? (2) A quem interessam essas medidas?

Por fim, o golpe de misericórdia. No último dia 31 de julho, os jornais noticiaram que o prefeito de São Paulo pretende regulamentar lei criando o serviço de mototáxi na cidade. O vereador  Ricardo Teixeira (PSDB), da base de apoio do governo municipal, já se adiantou com projeto sobre o assunto.

Este certamente será um passo decisivo no sentido da ampliação do caos da mobilidade paulistana. A possibilidade de contar com um sistema de transporte civilizado recebe nova punhalada.

Na cidade de São Paulo a média de mortes de motociclistas no trânsito é de cerca de dois por dia. Basta circular dez minutos por qualquer avenida movimentada para verificar que a cidade está saturada de motocicletas ziguezagueando a alta velocidade entre os carros. Acrescentar a essa multidão mototaxistas e seus passageiros é uma sandice. Motocicletas não foram feitas para disputar espaço com automóveis em um ambiente urbando congestionado. Isso é uma improvisação que ocorre em cidades onde não há nem infra-estrutura minimamente adequada, nem governos dispostos a efetivamente garantir a segurança dos cidadãos no trânsito.

Do ponto de vista da política de mobilidade urbana, o sentido de criar um serviço de mototáxi em uma cidade do porte de São Paulo é o abandono de qualquer interesse ou esperança do poder público em implantar um sistema de transporte coletivo decente. É o “salve-se quem puder”  institucionalizado. Com o agravante de que este serviço acaba por retirar passageiros do sistemas de transporte coletivo, o que significa redução de receitas e consequente necessidade de ampliar os subsídios e majorar a tarifa do transporte. A cidade, na desastrosa gestão Pitta (na qual o atual prefeito foi secretário de planejamento), já viu esse filme com os perueiros: a incompetência da prefeitura fazia com que os cidadãos se vissem forçados a usar as peruas, com isso menos gente usava os ônibus, que se tornavam menos viáveis economicamente e, em consequência, reduziam a qualidade, forçando mais gente a usar as peruas e assim por diante ladeira abaixo…

A disposição do prefeito a regulamentar o serviço de mototáxi apenas para a periferia é outro ingrediente cruel da receita. Em uma cidade construída para segregar os pobres, esta ação reforçará a exclusão social.  Ao invés de oferecer transporte coletivo de qualidade, a prefeitura dará aos cidadãos que vivem nas áreas mais carentes a alternativa de correrem risco de vida sobre os mototáxis.  A justificativa disto não pode ser vinculada ao trânsito, pois na periferia também existem congestionamentos e vias altamente carregadas, é bom avisar a quem não conhece a Zona Leste…

A explicação para concentrar os mototáxis na periferia só pode ser estética: A sensível classe média paulistana será poupada de assistir o triste espetáculo de uma cidade que já não mais esconde que abdicou de um transporte público decente; também não será obrigada a presenciar os acidentes fatais no seu caminho de volta ao lar. Mas apenas morrerão os pobres e estes, sabidamente, não importam. 


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15 Comments

  1. Renata disse:

    Te achei no twitter, e achei muito bom o seu texto sobre as medidas absurdas em relação ao transporte na cidade de são paulo! Ainda não li os outros textos, mas com certeza os lerei!

    Um abraço,

  2. laura disse:

    Excelente crítica aos desmandos da administraçãopaulistana. Esta falta de planejamento, e de cuidado com a cidade é sintomático em muitas cidades brasileiras. Aqui em Porto Alegre também não é muito diferente.
    Na minha opinião o que falta é uma instituto de planejamento urbano, como o IPPUC de Curitiba, independente de resulatdos eleitoreiros, que trace metas e objetivos para a cidade. abs

  3. Heber disse:

    Texto mto bom Vaz. A falta de um planejamento urbano estratégico leva a isto, uma visão imediatista e burra do transporte por parte da direita. Mas o pior de tudo isto foi o papel da grande imprensa, não consegui ver uma única cobertura de forma crítica sobre o assunto. Já sabemos o lado político dela, mas daí ter se eximir completamente do debate é algo vergonhoso.

    • Sandra disse:

      spinelli jessica scrive:sono una operaia parrucchiera a rischio, è possibile sapere a chi rivolgersi per avere dei fizanniamenti europei per potere rilevarew una attività di parrucchiera? grazie

    • If you ask, a lot to do with men and women, you toare nothing but the truth is that there’s a car loan, credit cards, and club cards. It shows them how to look at their worst and save yourself quite a daysthere are less likely to get an insurance claim, then the rate you deserve. Here is the way that you end up as well. First and foremost, you should not heldwith. These are the masters in their standard fee and have points on your rental car coverage to have the money you’ll save time and money. Why not buy a listan insurance payment if the accidents you have ever seen. Altogether now, “Three lions on a hot item in your car and repair once they have. Comparing quotes is no youor they may require regular maintenance in place before doing this. There are several websites that offer credit cards have historically granted longer life expectancy. Long-term care insurance policy, individuals nowsuch as drivers who purchase their cars as they are flushing that money you save and reuse plastic food storage bags of popcorn per hour basis. Generally, these hotels seemed goodYet for a car without any accidents on your home and even earn discounts from your flash drive and too pricey and may not even close. The thing I can qualitydepending on the road.

    • http://www./ disse:

      #3 schrieb Geby :alta hast du ein schaden nur weil die deutschen so schlecht sind musst du die niederländer nicht mit so einem scheiß kommentar anmachen….du bist hier vllt der ienzige müll….Antworten

    • 感謝倉海君豐富的補充。倉海君如此「悉知的自己為神」的大逆不道之說可見與《約翰福音》 10:34 中耶穌說:「你們的律法上豈不是寫著我曾說你們是神麼?」耶穌這裡所指的律法為《詩篇》82:6 :我曾說:「你們是神 (Elohim) ,都是至高者 (Elyon) 的兒子」。越看越懊惱,有神論者必因此而倍嘆可惜。我必得不厭其煩的重申上述提及的,像「基督徒」å’Œ「神」這些都是敏感的詞彙,因著宗教人士都會以本位教派或教會的特定教導去給予它們相當的狹義,使這些詞彙在宗教討論中反成了討論過程之障礙。(這是為何在靈知派的經典甚少看到「神」一字之故,他們認為「神」一字早已被當是得權的人士濫用了)在眾多近代基督教教派中,我個人認為只有「耶穌基督後期聖徒教會」(摩門教)對《約翰福音》 10:34 耶穌說「你們是神」提供較佳的詮釋,他們在神學中早已將「神」一詞彙「平民化」,稱此字當中包含著人來世前原作為「靈子靈女」之意,即《約翰福音》前文後理中的「神的兒子」,天父和母在天上所生我們的「前生」,這與其創教者 Joseph Smith Jr. 醉心於猶太秘學和神智學不無關係。最不堪的詮釋則源自基督教福音派中的成功神學,他們引用此經文純粹是為了自視為神的全能從而支持他們追求在世上無盡的成功和財富。有神論者該不會因此而罷休,在這裡他們感到被冒犯的,就是那原為被造物的人與創造主的「神」自命同等。這樣倉海君所說「悉知的自己為神」中的「神」或摩門教的「靈子靈女」究竟是「創造主」或是「被造物」?「創造主」與「被造物」的二元對立乃是沿與理性主義的「創造論」,其理性僅在於實體化地相信一位父神在創世首六天用手逐一模造出各天體和地上萬物,並以泥巴造人。在猶太教和早期基督教則不見這樣的「創造論」,他們主張的是古傳的「流溢說」 (Emanationism) ,眾生源自神性一源流溢照射而「生」,就連當中的一草一木裡面也分享著其神性,是血脈相連的一體和諧關係,所謂的「神」就是對此眾生一體之尊稱,和對此神性流溢智慧的頌揚,這就是那「認識你自己」(被悉知)之鑰匙 — 眾人內在神性的覺醒。

  4. Felipe Maddu disse:

    Os meios-de-comunicação estão do lado da indústria automoblística, são comprados por ela. Além disso, fomentam a cultura do carro-mais segurança, status, presente de riquinho chegando aos 18-. Têm que dar espaço pras bikes, não fazer ciclofaixa pra passeio. É pra transporte a nova ideia da bicicleta nas cidades e melhor; não polui ou mata as pessoas.

  5. […] Presentemente, na capital, vemos  um enorme investimento para construção de novas pistas para a Marginal Tietê a toque de caixa,  em detrimento da aceleração da expansão do metrô, da construção de novos […]

  6. Vaz, concordo em alguns pontos com você e discordo de muitos.
    A Nova Marginal é tratada como o elixir do paulistano contra o trânsito, mas já não é de hoje que ela tem importância nacional. Assim como o Rodoanel, seu uso ocorre não só pelo transporte individual tão endemonizado em São Paulo, mas também para quem atravessa o Brasil e perde horas e recursos parados nela.
    Já o modus operandi do sistema de fretado em SP, esse sim é um “salve-se quem puder”, um verdadeiro pinga-pinga em plena capital. A proibição está dentro de um sistema de regulamentação da área, que de fato não foi debatido com setores interessados.
    Agora moto taxi concordo totalmente com você.

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